terça-feira, 22 de julho de 2014

o altar quebrado

Liz e sua alma, esperando na beira de um rio, esperando seu rei, um rei em um cavalo branco, com vestes de ouro reluzentes, com o cavalo mais imponente que poderia existir, daqueles cavalos que todos invejariam. Liz veio em seu barco até a margem daquele rio, passou por muitas coisas, passou por várias coisas, sofreu, chorou e acreditava que agora nessa etapa da vida iria colher os melhores frutos, iria viver uma vida vitoriosa e iria realizar os planos pessoais e os planos que todos tinham em relação a ela, porém não foi assim que seu Rei a veio pega-la. Liz viu seu Rei vindo, ele não estava em um cavalo branco e imponente, Ele estava em um jumentinho, daqueles que ninguém queria andar, daqueles que envergonham quando se tem alguém do seu lado montando um jumentinho desse. O Rei não veio cavalgando, marchando para uma guerra, Ele veio resgatar Liz dessa sua jornada pessoal, naquele rio que era sua vida, em um animal que talvez não a levasse para longe, que talvez não vencesse a guerra que estava por vir, mas aquilo quebrou seu ídolo, o ídolo do orgulho de Liz, o orgulho de achar que ela tinha privilégios que o Rei nunca prometeu, então Liz, relutando contra sua alma, seguiu seu Rei, meio decepcionada com Ele mas subiu. No lombo do jumentinho eles foram em direção a guerra que esperava pelos dois, Liz lembrando que já havia aprendido demais, que já era hora de algo mais, de sonhos se concretizarem, já deu não dá, está na hora de cumprir o chamado de guerra. Então o Rei, que não vestia ouro mas sim uma veste simples, com panos que pareciam trapos, mas ali havia um Rei, seus olhos diziam isso, suas mãos furadas diziam isso, a gloria em seus olhos diziam isso, Ele parou o jumentinho e me mostrou algo, era um altar com algo dentro, então ele pediu para eu entrar. No altar Ele me disse que havia uma guerra que eu deveria enfrentar antes de partir para a guerra no qual nasci para guerrear, uma guerra no qual eu, Liz, nasceu para lutar. Então no altar encontrei meu eu, no altar entrei a mim. O Rei me deu uma marreta e mandou eu esmagar, com a máxima de força, o que havia no altar. Chorei, gritei, sabia que aquilo iria doer demais para mim, sabia que existiu a possibilidade de eu não aguentar a dor de tão descomunal que aquilo seria, mas o Rei insistiu. Eu não poderia pisar na guerra no qual queria lutar se antes não quebrasse aquele altar que criei anos atrás para mim mesmo. Segurei a marreta e fui quebrando cada pedaço. Quebrei as mãos, que me lembravam que eu achava que a força das minhas mãos resolveria algo, quebrei meus olhos, pois eles achavam que eles sim enxergavam como um visionário. Quebrei muitas coisas naquele dia, e para ser sincero estou tentando sair do altar mas ainda existem muitas coisas para quebrar. Eu, Liz, estou tentando com minha alma esmagar aquele altar, para nunca esquecer que o reino em que irei morar não é daqui.

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